Pirâmide da aprendizagem: aqueles percentuais são verdade? O que a ciência diz
A pirâmide da aprendizagem é um gráfico que diz quanto lembramos conforme o método: cerca de 10% do que lemos e até 90% do que ensinamos ou praticamos. Esses percentuais não têm base científica confiável. Ninguém encontrou o estudo que os teria medido. A intuição por trás, de que participar ativamente ajuda, tem apoio na pesquisa, por outros caminhos.
O que diz a pirâmide
A versão mais comum no Brasil tem seis níveis, do mais passivo ao mais ativo. Os percentuais mudam de um slide para outro, o que já é um sinal de alerta. Esta é a versão mais repetida em apresentações e posts:
| Percentual que circula | Fonte | |
|---|---|---|
| Ler | 10% | Não localizada |
| Escutar | 20% | Não localizada |
| Ver | 30% | Não localizada |
| Ver e escutar | 50% | Não localizada |
| Discutir | 70% | Não localizada |
| Praticar e ensinar | 90% | Não localizada |
De onde veio e por que não se sustenta
A pirâmide costuma ser atribuída a três fontes, e nenhuma delas confirma os números.
- Edgar Dale. Em 1946, o educador americano publicou o Cone da Experiência, que organiza recursos de ensino do mais concreto ao mais abstrato. O cone original não tem percentuais, e o próprio Dale alertou para não levar a ordem ao pé da letra.
- NTL Institute. O instituto americano aparece como fonte da versão com percentuais, mas não apresentou a pesquisa original quando pesquisadores pediram.
- William Glasser. A versão brasileira costuma creditar o psiquiatra americano, conhecido pela teoria da escolha. Não se conhece publicação dele com esses dados.
Quem investigou o assunto, como Lalley e Miller (2007) e Subramony, Molenda, Betrus e Thalheimer (2014), concluiu que os percentuais foram acrescentados ao cone de Dale ao longo do tempo, sem base empírica. Há também um problema de lógica. Quanto alguém lembra depende do conteúdo, do tipo de teste e do tempo que passou. Um número fixo para cada método não faz sentido.
O que usar no lugar: 4 práticas com evidência
A ciência cognitiva aponta técnicas que melhoram a retenção de forma consistente. Uma revisão de John Dunlosky e colegas, de 2013, classificou duas delas como de alta utilidade: praticar lembrando e espaçar o estudo.
Prática de recuperação
Puxar da memória: quiz, pergunta aberta, explicar sem consultar. Lembrar fortalece mais que reler.Prática espaçada
Revisar em intervalos ao longo de dias e semanas, em vez de tudo num dia só.Feedback
Mostrar o que estava certo e corrigir o erro logo depois da tentativa.Aplicação no trabalho
Usar o conteúdo numa tarefa real, com acompanhamento do gestor.Num estudo publicado na Science em 2011, Jeffrey Karpicke e Janell Blunt mostraram que estudantes que praticaram lembrar o conteúdo se saíram melhor numa prova posterior do que os que fizeram mapas conceituais. Ensinar e discutir ajudam, em boa parte, porque obrigam a pessoa a recuperar e organizar o que sabe.
Na prática
Curso de atendimento: um vídeo de 50 minutos e uma prova no fim, no mesmo dia.
Cinco módulos de 10 minutos, cada um com perguntas para responder de memória. Quiz de revisão depois de uma semana e de um mês. Atendimento simulado com feedback do supervisor.
Como aplicar nos treinamentos da empresa
- Troque a prova única por perguntas ao longo do curso. Questões curtas a cada módulo puxam a memória enquanto a pessoa aprende.
- Programe reforços. Um microlearning de revisão uma semana e um mês depois do curso.
- Peça para explicar. Quem terminou a trilha apresenta um caso para a equipe.
- Leve para a tarefa. Combine com o gestor onde o conteúdo será usado na semana seguinte.
- Corrija a fonte. Se a pirâmide aparece em materiais da empresa, troque os percentuais por estas práticas.
Ao comprar conteúdo, confira se o curso tem prática, revisão e feedback, entre os critérios de como avaliar cursos de prateleira. A andragogia e o ciclo de Kolb ajudam a desenhar a sequência das atividades. Para saber se a retenção virou comportamento, use os níveis de Kirkpatrick.
Perguntas frequentes
A pirâmide da aprendizagem é de William Glasser?
A atribuição circula muito no Brasil, mas não se conhece publicação de Glasser com esses números. A versão com percentuais também aparece ligada ao NTL Institute e ao cone de Edgar Dale, e nenhuma dessas fontes apresenta o estudo original.
Qual a diferença entre a pirâmide e o cone de Edgar Dale?
O cone de Dale, de 1946, organiza recursos de ensino do mais concreto ao mais abstrato e não tem percentuais. A pirâmide acrescentou números de retenção que não vêm do trabalho de Dale.
Então aulas expositivas não funcionam?
Funcionam para apresentar conceitos, principalmente quando são curtas e intercaladas com perguntas. O problema está em parar nelas, sem prática, revisão e feedback.
Qual o método mais eficaz para reter conteúdo?
Não existe um único. As técnicas com evidência mais consistente são a prática de recuperação e a prática espaçada, combinadas com feedback e aplicação no trabalho.
Revise um curso com o que a pesquisa sustenta
As 4 práticas explicadas com exemplos para T&D, um checklist de 12 perguntas para revisar um curso e um calendário de reforço espaçado para preencher.
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